Eu era contra o casamento. Hoje, restauro casamentos.
O trauma
Eu cresci vendo um casamento se destruir por dentro, devagar, do jeito que mais machuca: sem grito, só silêncio e ausência. Meu pai foi embora cedo demais da minha vida, e a marca que ficou não foi só a falta dele. Foi a certeza, plantada em mim ainda menina, de que amar era arriscado e que casamento era armadilha.
Por anos eu carreguei isso como verdade. Decidi, com todas as letras, que eu nunca casaria. Fui criada para trabalhar, estudar, ganhar o meu dinheiro e viajar o mundo, e fiz disso uma espécie de blindagem. Se eu não dependesse de ninguém, ninguém poderia me abandonar. Era um plano lógico. Só não era um plano feliz.
A virada
A fé chegou antes do amor, e foi ela que abriu a porta. Quando eu conheci o Anderson, a primeira coisa que pensei foi que aquilo não cabia no meu roteiro. A segunda foi que, pela primeira vez, eu queria que coubesse. Devagar, descobri que casamento podia ser outra coisa do que eu tinha visto: não uma sentença, mas uma construção. Não perfeita, mas real.
Não bastava sentir. Eu precisava entender. Fui estudar a sério: me formei com o Dr. Jorge Rodrigues e fiz pós em família. Queria ferramentas, não só boa vontade. Queria saber por que algumas famílias resistem e outras ruem, e o que, na prática, faz a diferença. Foi aí que método e fé deixaram de ser coisas separadas e viraram a mesma coisa dentro de mim.
A missão
Então eu virei mãe e me desestruturei de novo, por um motivo que ninguém tinha me avisado. Eu havia sido criada para produzir, conquistar, ir longe. Não para servir. E a maternidade me jogou de cara numa entrega que eu não sabia fazer sem sentir que estava me perdendo. Amava meus filhos e, ao mesmo tempo, sentia que estava sumindo. Demorei a entender que cuidar dos outros não exige desaparecer.
Foi dessa travessia que nasceu o meu trabalho com mulheres e mães, porque eu vivi, na pele, a culpa e o esgotamento de quem ama a família e mesmo assim se sente no limite. Hoje sou casada há 11 anos, mãe de 5, e há 4 anos acompanho mulheres e casais que chegam onde eu já estive: à beira de desistir.
Eu não ensino nada que eu não viva dentro da minha própria casa, com o Anderson, nas alegrias e nos perrengues de quem cria cinco filhos e ainda escolhe o casamento todo dia. A minha família quase se destruiu antes mesmo de começar. É exatamente por isso que eu dedico a minha vida para que a sua não se destrua.
Famílias não precisam se destruir. A minha quase se destruiu, e é por isso que eu faço o que faço.